"Com licença, estou infeliz. Estou mesmo. Não sei dizer o motivo, são algumas frustrações, algumas coisas muito minhas, algumas mágoas que não consigo colocar para fora, porque eu sou assim, escrevo, escrevo e escrevo, mas na hora de abrir a boca pra falar nem sempre sai. Tem coisa que guardo, tranco lá dentro e jogo a chave fora. Preciso me sacudir e fazer a coisa toda sair, mas nem sempre dá, então fico nessa vibe meio infeliz de tudo, infeliz com tudo, infeliz pra sempre. Até o dia que deixar de ser. Até o dia que conseguir falar, me expressar, fazer sair. Preciso de um laxante para as emoções.
Nunca sei direito se a vida me fez assim, as situações fizeram com que eu me tornasse assim, não sei, não sei. A última e única coisa que lembro é de sentir. Eu sinto o sentir. Sei que parece papo de louco, mas é verdade, é real, sinto demais. A realidade me consome. Mas me consome exageradamente."
"Em geral, o que se passava de mais importante comigo acontecia em silêncio. Quando criança, costumava ficar imóvel, concentrada no ruído que meus ossos emitiam ao crescer. Era inconcebível que isso acontecesse sem outro aviso que o dos sapatos, de um dia para o outro expulsos dos pés. Uma coisa importante assim devia vir precedida de uma notificação para que a gente pudesse tomar providências, agir da maneira correta. Ainda hoje parece-me malicioso que o sentido de tudo se revele somente depois, quando não há nada a fazer senão aceitar o novo tamanho e descobrir um lugar onde se caiba. Nisso os sapatos e a consciência se parecem: só quando apertam é que sabemos."
Adriana Lunardi, A vendedora de fósforos, p.62 (via ranchocarne)